A REZA, O BANHO AO CHÁ – SABERES TRADICIONAIS QUILOMBOLAS E INDÍGENAS PARA A SAÚDE PSÍQUICA: REZAS, ERVAS, BENZIMENTOS E PRÁTICAS COMUNITÁRIAS DE CURA FRENTE AO RACISMO, AO DESLOCAMENTO E ÀS VIOLÊNCIAS ESTRUTURAIS
DOI:
https://doi.org/10.56238/arev7n12-339Palavras-chave:
Saberes Tradicionais, Saúde Psíquica, Práticas Comunitárias de Cura, Racismo EstruturalResumo
Em contextos marcados pelo racismo estrutural, pela expropriação territorial, pelo deslocamento forçado e por múltiplas formas de violência histórica, populações quilombolas e indígenas têm mobilizado, de modo persistente, saberes tradicionais como estratégias de cuidado, resistência e preservação da vida. Práticas como rezas, banhos de ervas, benzimentos e rituais comunitários de cura constituem não apenas recursos terapêuticos, mas também expressões de uma cosmologia própria, na qual saúde psíquica, corpo, território, ancestralidade e coletividade se articulam de forma indissociável. Nesse sentido, o artigo parte do reconhecimento de que tais práticas desafiam concepções biomédicas hegemônicas e individualizantes de saúde mental, afirmando modos de cuidado enraizados na memória coletiva, no pertencimento comunitário e na espiritualidade ancestral. O objeto deste artigo consiste na análise dos saberes tradicionais quilombolas e indígenas relacionados às práticas de cura comunitária – como rezas, uso de ervas medicinais, benzimentos e rituais coletivos – enquanto dispositivos de cuidado da saúde psíquica e de enfrentamento aos efeitos do racismo, do desenraizamento territorial e das violências estruturais. Ao dialogar com perspectivas críticas da saúde coletiva, da antropologia, dos estudos decoloniais e dos saberes tradicionais, o texto busca compreender essas práticas como tecnologias sociais de cuidado, capazes de produzir sentido, proteção simbólica, fortalecimento subjetivo e recomposição dos vínculos comunitários. A pergunta de partida que orienta a reflexão é: em que medida os saberes tradicionais quilombolas e indígenas, expressos em práticas comunitárias de cura, contribuem para a promoção da saúde psíquica e para a resistência coletiva frente às violências estruturais impostas pelo racismo e pela colonialidade? Teoricamente, foram usados os repertórios de Arthur Kleinman (1995; 2020), Nancy Scheper-Hughes (1993), Paul Farmer (1998; 2003), Cecil Helman (1984), Franco Basaglia (1968; 2005), Achille Mbembe (2017; 2018; 2021), Frantz Fanon (1980; 2008; 2022), Lélia Gonzalez (2017; 2018; 2020; 2022), Kabengele Munanga (2005; 2015; 2019), Clóvis Moura (1988; 1994; 2020), Gloria Anzaldúa e Cherríe Moraga (1990; 2022), Viveiros de Castro (1992; 2007; 2009; 2014), Davi Kopenawa e Bruce Albert (2013; 2019), Ailton Krenak (2019; 2020), Daniel Munduruku (2005; 2013), Juana Elbein dos Santos (1986), Vicente Parizi (2020), Hertz Wendel de Camargo (2019), Gustavo Wada Ferreira (2022), entre outros. A pesquisa é de cunho qualitativa (Minayo, 2007), descritiva e bibliográfica (Gil, 2008) e com o viés analítico compreensivo (Weber, 1949). Os achados indicam que rezas, banhos de ervas, benzimentos e rituais comunitários atuam como dispositivos coletivos de cuidado da saúde psíquica entre populações quilombolas e indígenas, articulando corpo, espiritualidade, território e ancestralidade. Essas práticas contribuem para a redução do sofrimento psíquico associado ao racismo estrutural, ao deslocamento e às violências históricas, ao mesmo tempo em que fortalecem vínculos comunitários e identidades coletivas. Evidencia-se, ainda, seu caráter de resistência epistemológica frente à hegemonia biomédica individualizante. O reconhecimento desses saberes amplia a compreensão do cuidado em saúde e aponta para modelos mais plurais e antirracistas.
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