BURNOUT DOCENTE E A SAÚDE EDUCACIONAL: A URGÊNCIA DE ESTRATÉGIAS INSTITUCIONAIS QUE GARANTAM CUIDADO, PROTEÇÃO E SUPORTE PSICOLÓGICO AOS PROFISSIONAIS DA EDUCAÇÃO
DOI:
https://doi.org/10.56238/arev8n2-108Palavras-chave:
Burnout Docente, Saúde Educacional, Condições de Trabalho, Políticas Institucionais de CuidadoResumo
Nas últimas décadas, o trabalho docente tem sido progressivamente atravessado por processos de intensificação laboral, precarização das condições de trabalho, ampliação das demandas burocráticas, pressão por resultados mensuráveis e enfraquecimento das redes institucionais de apoio. Esse cenário tem produzido impactos significativos sobre a saúde física, emocional e psíquica dos profissionais da educação, contribuindo para o aumento de quadros de adoecimento relacionados ao estresse crônico, à exaustão emocional e à perda de sentido do trabalho pedagógico. A escola, que historicamente se constitui como espaço de cuidado, formação humana e mediação social, passa a operar, paradoxalmente, como ambiente de risco à saúde de seus próprios trabalhadores. Diante desse contexto, o presente artigo tem como objeto de análise a “síndrome de burnout docente”, compreendida como expressão multifacetada de um adoecimento que não se reduz à esfera individual, mas que resulta de condições institucionais, organizacionais e políticas que estruturam o trabalho educacional contemporâneo. A investigação orienta-se pela seguinte pergunta de partida: de que maneira as condições institucionais de trabalho e a ausência de políticas estruturadas de cuidado contribuem para o adoecimento psíquico docente, e quais estratégias institucionais podem ser construídas para promover proteção, suporte psicológico e saúde educacional? Teoricamente, fizemos uso dos trabalhos de Maslach (1982; 1997), Leiter e Maslach (2005), Schaufeli e Enzmann (1998), Schaufeli e Buunk (1996), Schaufeli (2017), Lazarus e Folkman (1984), Lapierre e Cooper (2023), Halbesleben (2023), Tetrick e Fisher (2023), Dejours (1998; 1999; 2006; 2008; 2014; 2017), Antunes (2006; 2009; 2018), Sennett (1998; 2006; 2012), Honneth (2003; 2015), Han (2015; 2021; 2025), Hochschild (2012), Clot (2010), entre outros. A pesquisa é de cunho qualitativo (Minayo, 2007), descritiva e bibliográfica (Gil, 2008) e com o viés analítico compreensivo (Weber, 1949). Os achados da pesquisa evidenciam que o burnout docente constitui fenômeno estruturalmente produzido por condições institucionais marcadas pela intensificação do trabalho, fragilização das redes de apoio e ausência de políticas permanentes de cuidado, impactando diretamente a qualidade da prática pedagógica. Constatou-se que estratégias institucionais como reorganização das condições de trabalho, implementação de programas estruturados de saúde mental, fortalecimento da cultura de cooperação e liderança escolar humanizada são fundamentais para promover proteção, suporte psicológico e saúde educacional de forma sistêmica e sustentável.
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