DEMOCRACIA DELIBERATIVA: UMA CRÍTICA RETÓRICA
DOI:
https://doi.org/10.56238/arev8n5-058Palavras-chave:
Democracia Deliberativa, Retórica Jurídica Analítica, Rule of Law, PragmatismoResumo
Este artigo examina a democracia deliberativa como uma tentativa contemporânea de reconstruir a legitimidade do Estado de Direito sob condições de pluralismo normativo e complexidade institucional. Embora a teoria deliberativa se apresente como uma resposta à erosão da autoridade jurídica, fundamentando a legitimidade na justificação pública e em procedimentos discursivos, o artigo sustenta que essa reconstrução repousa sobre pressupostos comunicativos, epistêmicos e sociais exigentes e frequentemente irrealistas. A partir de uma perspectiva retórica, que recorre às teorias clássicas da persuasão, à virada linguística e à noção de dissoi logoi, a análise contesta a pretensão deliberativa de que a legitimidade política possa emergir de um consenso racional independente das relações de poder e das desigualdades retóricas. O artigo demonstra que as práticas deliberativas não neutralizam a discricionariedade nem a dominação, mas antes as redistribuem por meio de vocabulários de justificação institucionalmente autorizados, que privilegiam certos falantes, formas de raciocínio e tipos de expertise.Como resultado, a democracia deliberativa corre o risco de converter a legitimidade em uma função da competência discursiva e da posição institucional, em vez de expressão do autogoverno democrático. A seção final argumenta que essa dinâmica possui implicações significativas para a compreensão contemporânea do Estado de Direito, que passa a operar cada vez menos como um limite ao poder e cada vez mais como um registro retórico para legitimar decisões discricionárias ex post. O artigo conclui que a democracia deliberativa, longe de superar o esvaziamento semântico do Estado de Direito, pode contribuir para a sua consolidação.
Downloads
Referências
Adeodato, J. M. (2015). Uma crítica à retórica de Aristóteles. Revista Brasileira de Estudos Políticos, 110, 35–73. https://doi.org/10.9732/P.0034-7191.2015v110p35
Adeodato, J. M. (2017). Law and morals according to a realistic and rhetorical philosophy: The Brazilian case revisited. In Law and morals: Proceedings of the special workshop held at the 28th World Congress of the IVR. International Association for Philosophy of Law and Social Philosophy.
Adeodato, J. M. (2017). Retórica realista e decisão jurídica. Revista de Direitos e Garantias Fundamentais, 18(1), 15–40.
Adeodato, J. M. (2017). O problema do conhecimento do direito e a proposta retórica realista. Revista Duc In Altum – Cadernos de Direito, 9(18), 65–86. https://doi.org/10.22293/2179-507x.v9i18.607
Adeodato, J. M. (2021). O esvaziamento do texto e do controle das decisões jurídicas. Revista Direito e Práxis, 12(2), 915–944. https://doi.org/10.1590/2179-8966/2020/47097
Adeodato, J. M. L. (2021). O problema ético: Como separar o bom do mau direito. Revista Jurídica da Presidência, 23(130), 341–366. http://repositorio.fdv.br:8080/handle/fdv/1427
Adeodato, J. M. (2021). Construção retórica da argumentação jurídica. Direito, Estado e Sociedade. Ahead of print.
Adeodato, J. M. (2024). Rhetoric as a kind of philosophy. Archiv für Rechts- und Sozialphilosophie, 110(1), 45–55.
Habermas, J. (1995). On the internal relation between the rule of law and democracy. European Journal of Philosophy, 3(1), 12–20. https://doi.org/10.1111/j.1468-0378.1995.tb00036.x
Habermas, J. (1996). Between facts and norms: Contributions to a discourse theory of law and democracy (W. Rehg, Trans.). MIT Press.
Habermas, J. (2022). Reflections and hypotheses on a further structural transformation of the political public sphere. Theory, Culture & Society, 39(4), 145–171. https://doi.org/10.1177/0263276422111234
Luhmann, N. (2004). Law as a social system (K. A. Ziegert, Trans.). Oxford University Press.
Posner, R. A. (1998). Against constitutional theory. New York University Law Review, 73, 1–22.
Posner, R. A. (2003). Law, pragmatism, and democracy. Harvard University Press.
Posner, R. A. (2008). How judges think. Harvard University Press.
Schmitt, C. (2008). Constitutional theory (J. Seitzer, Trans. & Ed.). Duke University Press.
Sunstein, C. R. (2002). The law of group polarization. Journal of Political Philosophy, 10(2), 175–195.
Sunstein, C. R. (2009). Going to extremes: How like minds unite and divide. Oxford University Press.
Rodrigues, D. B., McCubbins, M. D., & Weingast, B. R. (2010). The rule of law unplugged. Emory Law Journal, 59, 1455–1494. https://scholarlycommons.law.emory.edu/elj/vol59/iss6/2
Waldron, J. (2006). The core of the case against judicial review. Yale Law Journal, 115(6), 1346–1406.
Waldron, J. (2008). The concept and the rule of law. Georgia Law Review, 43, 1–61.