A TAÇA NA RAÇA: ENTENDENDO COMO VISÕES ESSENCIALISTAS ÉTNICO-RACIAIS SOBRE O FUTEBOL BRASILEIRO CONSTITUEM MANIFESTAÇÕES DE RACISMO ESTRUTURAL
DOI:
https://doi.org/10.56238/arev8n3-092Palavras-chave:
Antropologia Cultural, Futebol Brasileiro, Determinismo Racial, Imprensa Esportiva, Racismo EstruturalResumo
Historicamente, o conceito de “raça”, mesmo não se sustentando cientificamente, se tornou central, no senso comum para explicar o destaque do futebol brasileiro no mundo. Diante disso, o texto problematiza dois mitos raciais na sociedade brasileira: 1) a proeminência de explicações fisiológicas e a 2) subalternidade da cultura para o sucesso de muitos atletas. Advoga-se que, em função do racismo estrutural, os dados do IBGE baseados na autodeclaração tendem ao branqueamento, isto é, alguns pretos se veem como pardos e muitos pardos se veem como brancos. Tal crítica é ilustrada por uma estatística realizada a partir dos 927 jogadores que disputaram o Campeonato Brasileiro de 2022. Eles foram heteroidentificados a partir de fotos na edição especial da revista Placar sobre esse torneio. O percentual de pretos, pardos, amarelos e indígenas foi maior e o percentual de brancos menor que os percentuais do IBGE no mesmo período para a sociedade brasileira. O artigo preconiza que a imprensa esportiva abandone visões raciais essencialistas e sugere que a autopercepção racial/de cor da sociedade brasileira ainda é afetada pelo nomeado “branqueamento censitário”.
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