IMPLANTAÇÃO DE SERVIÇO AMBULATORIAL DE FISIOTERAPIA RESPIRATÓRIA PARA PACIENTES PEDIÁTRICOS COM TRAQUEOSTOMIA
DOI:
https://doi.org/10.56238/arev8n6-024Palavras-chave:
Fisioterapia, Traqueostomia, AmbulatórioResumo
Introdução: A traqueostomia pediátrica é procedimento essencial para manter a via aérea de crianças com condições clínicas complexas, como malformações, doenças neuromusculares, prematuridade e dependência prolongada de ventilação. Embora garanta a sobrevivência, associa-se a complicações frequentes como tampões mucosos, obstruções, infecções e trocas emergenciais da cânula, muitas vezes relacionadas à falta de orientação e de acompanhamento após a alta. Em Marabá (PA), a carência de serviços estruturados para o cuidado continuado contribui para reinternações evitáveis e insegurança dos cuidadores. Nesse contexto, implantou-se no Ambulatório Pediátrico de Dispositivos Especiais (AMPEDE) um serviço de fisioterapia respiratória para crianças traqueostomizadas, visando fortalecer o cuidado ambulatorial, prevenir complicações e ampliar a autonomia familiar. Métodos: Relato de experiência descritivo sobre a implantação de um serviço ambulatorial de fisioterapia respiratória para crianças com traqueostomia, desenvolvido no AMPEDE, localizado no Instituto Sonho e Esperança de Restituir Vidas (SERVI), em Marabá-PA. A implementação ocorreu em quatro etapas: (1) revisão integrativa da literatura; (2) organização física e logística; (3) elaboração de 12 Procedimentos Operacionais Padrão (POPs); e (4) validação prática com acompanhamento dos primeiros pacientes. Os atendimentos ocorreram duas vezes por semana, no turno da manhã, seguindo fluxos assistenciais padronizados. Foram incluídas crianças de 0 a 12 anos, clinicamente estáveis e acompanhadas por cuidadores. Os dados foram obtidos das fichas de avaliação fisioterapêutica e evoluções, mediante Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UEPA. Relato de Experiência: A implantação decorreu da necessidade observada pelos profissionais do AMPEDE diante da ausência de acompanhamento contínuo às crianças traqueostomizadas. Parcerias com o SERVI possibilitaram espaço físico, insumos e apoio administrativo. Foram elaborados POPs para acolhimento, avaliação, técnicas respiratórias, aspiração, treinamento de cuidadores e alta, além de ficha própria para avaliação respiratória. Entre outubro e novembro de 2025, quatro pacientes foram acompanhados, todos do sexo feminino, com idades entre 1 ano e 1 mês e 11 anos, portadores de condições neurológicas, prematuridade ou laringomalácia. As intervenções incluíram técnicas de higiene brônquica, reexpansão pulmonar, aspiração de secreções, monitorização clínica e educação em saúde. As famílias relataram insegurança no manejo domiciliar, dificuldades de transporte e ausência prévia de acompanhamento especializado. Discussão: Os resultados iniciais demonstraram redução da secretividade da traqueostomia, prevenção de tampões mucosos e menor frequência de complicações, em consonância com evidências que destacam o papel da fisioterapia respiratória na manutenção da permeabilidade das vias aéreas e na prevenção de eventos adversos. A capacitação dos cuidadores mostrou-se essencial, ampliando a segurança e autonomia para o manejo domiciliar. Entre os desafios, destaca-se o acesso limitado ao transporte público especializado, o que compromete a adesão, evidenciando o impacto de determinantes sociais da saúde e a necessidade de políticas públicas para suporte às famílias. O serviço configura-se como dispositivo de inclusão social e qualificação da rede de atenção. Considerações finais: A implantação do serviço de fisioterapia respiratória no AMPEDE representou avanço para o cuidado de crianças traqueostomizadas em Marabá, com impacto na prevenção de complicações respiratórias, na qualificação do manejo domiciliar e na segurança dos cuidadores. O modelo estruturado, baseado em protocolos e educação permanente, mostrou-se viável e fundamental para promover o cuidado integral e contínuo. Recomenda-se, portanto, a ampliação e consolidação como política permanente, bem como a replicação da experiência em outros municípios, contribuindo para a melhoria dos desfechos clínicos e para a dignidade das crianças com condições complexas.
Downloads
Referências
ALVES, F. O.; ZALAF, L. R.; SILVA, A. E.; GUTSCHOV, C. C. Atuação da fisioterapia no paciente oncológico traqueostomizado: uma revisão narrativa. Brazilian Journal of Health Review, Curitiba, v. 4, n. 5, p. 20183–20201, 2021. DOI: 10.34119/bjhrv4n5-137. Disponível em: https://ojs.brazilianjournals.com.br/ojs/index.php/BJHR/article/view/36535
CHORNEY, S. R. et al. Pediatric Tracheostomy Outcomes After Development of a Multidisciplinary Airway Team: A Quality Improvement Initiative. OTO Open, v. 5, n. 3, p. 2473974X2110456, jul. 2021. DOI: 10.1177/2473974X211045615.
CUNHA, M. A. C. et al. Ambulatório Pediátrico de Dispositivos Especiais – Procedimentos Operacionais Padrão. Belém: Editora Pascal, 2022.
DA SILVA, Ellen Vitória et al. Proposta de tecnologia educativa para o cuidado de crianças e adolescentes com traqueostomia na atenção primária: estudo metodológico. Revista de Ciências da Saúde Nova Esperança, v. 21, n. Esp1, p. 457-467, 2023.
FRANCO, Camila da Silva; REIS, Eveny D. Chaves dos; et al. Traqueostomia: indicações, técnicas, cuidados, complicações e decanulação. Revista Multidisciplinar em Saúde – Acervo Mais, v. 11, n. 3, p. e12502, 2023. ISSN 2764-0485. Disponível em: https://acervomais.com.br/index.php/medico/article/view/12502
JUNIOR, Hugo Santana dos Santos et al. Atuação do fisioterapeuta no gerenciamento de risco para pacientes com traqueostomia. Physicotherapist performance in risk management for patients with tracheostomy. Brazilian Journal of Development, v. 7, n. 6, p. 54405-54419, 2021
KOMORI, M. Update on pediatric tracheostomy. Auris Nasus Larynx, v. 51, n. 3, p. 429-432, 2024. DOI: 10.1016/j.anl.2024.01.003.
KOU, Y.-F.; CHORNEY, S. R.; JOHNSON, R. F. Multidisciplinary pediatric tracheostomy teams. Otolaryngologic Clinics of North America, v. 55, n. 6, p. 1195-1203, 2022.
NETO, J. F. L.; CASTAGNO, O. C.; SCHUSTER, A. K. Complicações de traqueostomia em crianças: uma revisão sistemática. Brazilian Journal of Otorhinolaryngology, v. 88, p. 882-890, 2022.
ONG, T. et al. The Trach Safe Initiative: a quality improvement initiative to reduce mortality among pediatric tracheostomy patients. Otolaryngology–Head and Neck Surgery, v. 163, n. 2, p. 221-231, 2020.
PAUPÉRIO, Anita; ROSA, Helena; ANTUNES, Luís. Traqueostomia pediátrica: experiência de 10 anos num centro terciário. Revista Portuguesa de Otorrinolaringologia-Cirurgia de Cabeça e Pescoço, v. 59, n. 3, p. 261-265, 2021.
PEREIRA, L. C.; FLORES, P. V. P.; SILVA, L. F. Cuidado domiciliar da criança em uso de traqueostomia: perspectiva dos cuidadores no contexto amazônico. Cogitare Enfermagem, v. 29, 2024. DOI: 10.1590/ce.v28i0.9218.
SANTOS, M. S. A.; CARVALHO, R. E. F. L. Protocolo para decanulação de traqueostomia pediátrica: evidências de validação de conteúdo. 2023. DOI: 10.1590/2317-6431-2022-2755pt.
SMITH, M. M.; BENSCOTER, D.; HART, C. K. Pediatric tracheostomy care updates. Current Opinion in Otolaryngology & Head and Neck Surgery, v. 28, n. 6, p. 425-429, 2020. DOI: 10.1097/MOO.0000000000000666.