“NÃO NASCI PARA SER MÃE”: VIVÊNCIA DE ARREPENDIMENTO MATERNO EM MULHERES BRASILEIRAS
DOI:
https://doi.org/10.56238/arev8n3-024Palavras-chave:
Maternidade, Arrependimento, Feminismos, Gênero, Não-maternidadeResumo
O objetivo deste estudo foi investigar o fenômeno do arrependimento da maternidade em mulheres brasileiras. As participantes foram recrutadas pelo método conhecido como ‘bola de neve’ e convidadas a relatar suas experiências por meio de entrevista semiestruturada, realizada em único encontro. Foram realizadas 10 entrevistas com mulheres que declararam seu arrependimento pela escolha da maternidade, sendo 5 mulheres negras e 5 brancas, com rendas distintas e alta escolaridade. Os dados foram analisados pela metodologia da Análise Temática (Braun & Clarke, 2006). Três categorias foram encontradas: (1) Scripts culturais: maternidade naturalizada e idealizada; (2) O preço: Abrir mão de si e (3) Sobrecarga e exaustão. Foi comum o relato do peso da concentração de cuidados na figura materna, levando a uma (quase) impossibilidade de manutenção de projetos pessoais e de cuidados mínimos consigo mesmas. Todas as mulheres tiveram problemas com os genitores, relacionados a sua falta de atenção e cuidado com os próprios filhos. Os resultados sugerem ainda que persiste uma grande idealização cultural da maternidade, a qual se distancia bastante, em nossa cultura, da realidade exigida das mulheres quando se tornam mães. Essa idealização, além de promover sofrimento por expectativas que se frustram, não possibilita que a escolha pela maternidade se dê de forma mais consciente e ponderada.
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