ABUNDÂNCIA E MISÉRIA NOS MERCADOS DA CIDADE: LE VENTRE DE PARIS (1873), DE ÉMILE ZOLA
DOI:
https://doi.org/10.56238/arev8n2-118Palavras-chave:
Naturalismo, Le Ventre de Paris, Émile Zola, Abundância, MisériaResumo
Este estudo analisou Le Ventre de Paris (1873), de Émile Zola, sob a perspectiva teórica de Antoine Compagnon, com especial atenção à tensão entre abundância e miséria nos mercados da cidade. O romance, terceiro da série Les Rougon-Macquart, apresenta como cenário principal Les Halles, o grande mercado central de Paris, que Zola transforma em metáfora do “ventre” da cidade — um organismo vivo que nutre e devora, simultaneamente. A narrativa acompanha Florent, personagem marcado pela experiência do exílio e pela fome, cujo olhar sobre o mercado serve como fio condutor para a crítica social do autor. O trabalho destacou como Zola, dentro do projeto naturalista, constrói uma escrita que combina rigor documental e força estética. As longas descrições dos alimentos, suas cores e cheiros criam uma atmosfera sensorial que traduz o excesso da modernidade capitalista, ao mesmo tempo em que evidencia a exclusão dos que permanecem à margem do consumo. A oposição entre “gordos” e “magros” — símbolo de poder e privação — estrutura a narrativa e reforça o caráter desigual da ordem social retratada. À luz de Compagnon, enfatizou-se que a obra de Zola não é apenas reflexo da realidade, mas interpretação crítica, capaz de transformar o mercado em alegoria do corpo social e do apetite insaciável da cidade. O estudo também ressaltou o caráter político do romance, que denuncia o controle social e a repressão exercidos pelo Estado, culminando no destino trágico de Florent. Conclui-se que Le Ventre de Paris permanece atual ao problematizar as tensões entre abundância e miséria, progresso e exclusão. A obra de Zola revela a modernidade em sua face mais contraditória, oferecendo ao leitor não apenas uma narrativa envolvente, mas também uma reflexão profunda sobre os mecanismos de poder e as desigualdades produzidas pelo capitalismo urbano.
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