O SILÊNCIO DA BRANQUITUDE NAS DIRETRIZES CLÍNICAS E FORMATIVAS DA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE
DOI:
https://doi.org/10.56238/arev8n1-151Palavras-chave:
Racismo, Atenção Primária à Saúde, Branquitude, Educação MédicaResumo
O presente artigo analisa como o debate racial, com foco na branquitude, apresenta-se – ou ausenta-se – nos documentos políticos, formativos e técnicos que guiam a prática da Medicina de Família e Comunidade (MFC) no município do Rio de Janeiro (MRJ). Realizou-se pesquisa documental qualitativa dos seguintes textos: a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN), a Política Nacional de Atenção Básica (PNAB), o Currículo Baseado em Competências da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC) e protocolos técnicos da Secretaria Municipal do RJ (SMS-RJ). Os resultados identificam uma disrupção crítica entre a política de equidade (PNSIPN) e os documentos técnicos: enquanto a política de nível central reconhece o racismo como determinante de saúde, os guias municipais e o currículo formativo baseado em evidência operam sob lógica de universalismo do cuidado. A branquitude mantém-se invisível e normativa; ambos silenciam o racismo como determinante social nos protocolos clínicos. Por fim, conclui-se que a ausência de letramento racial nos documentos técnicos, em contraponto com a PNSIPN, perpetua o racismo institucional e o pacto narcísico da branquitude na formação e prática médica.
Downloads
Referências
ALMEIDA, Silvio Luiz de. Racismo estrutural. São Paulo: Jandaíra, 2020.
BENTO, Maria Aparecida Silva. O pacto da branquitude. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.
BORRET, Rafael H.; et al. A sua consulta tem cor? Incorporando o debate racial na Medicina de Família e Comunidade: um relato de experiência. Revista Brasileira de Medicina de Família e Comunidade, Rio de Janeiro, v. 15, n. 42, p. 2255, 2020. Disponível em: https://rbmfc.org.br/rbmfc/article/view/2255. Acesso em: 4 set. 2022.
BRASIL. Ministério da Saúde. Política Nacional de Atenção Básica. 3. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2007. (Série Pactos pela Saúde; v. 4).
BRASIL. Ministério da Saúde. Política Nacional de Atenção Básica. 1. ed. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2012a.
BRASIL. Ministério da Saúde. Política Nacional de Saúde Integral da População Negra: uma política do SUS. Brasília: Ministério da Saúde, 2012b. (Textos Básicos de Saúde).
BRASIL. Ministério da Saúde. Política Nacional de Saúde Integral da População Negra. Brasília: Ministério da Saúde, 2016.
BRASIL. Ministério da Saúde. Política Nacional de Saúde Integral da População Negra. Brasília: Ministério da Saúde, 2009. (Textos Básicos de Saúde).
BRASIL. Ministério da Saúde. Política Nacional de Atenção Básica. Brasília: Ministério da Saúde, 2017.
CARNEIRO, Sueli. A construção do outro como não-ser como fundamento do ser. 2023.
EUGÊNIO, Renata Wirthmann. Apropriação cultural. São Paulo: Sueli Carneiro; Pólen, 2019. (Feminismos Plurais).
FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Tradução de Renato da Silveira. Salvador: EDUFBA, 2008.
GIOVANELLA, Ligia (Org.). Políticas e sistema de saúde no Brasil. 2. ed. rev. e ampl. Rio de Janeiro, RJ: Editora Fiocruz; Centro Brasileiro de Estudos da Saúde, 2012.
GONZALEZ, Lélia. Racismo e saúde. ABCD: Revista Brasileira de Saúde da Comunidade, Rio de Janeiro, v. 3, n. 4, p. 234-245, 1984.
JOSUÉ, Lívia. Raça, genética & hipertensão: nova genética ou velha eugenia? História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 12, p. 371-393, ago. 2005. Disponível em: https://www.scielo.br/j/hcsm/a/sLMdVpkVVRQVjhrbk4qRyZn/. Acesso em: 28 out. 2023.
MERHY, Emerson Elias. Saúde: a cartografia do trabalho vivo. 8. ed. São Paulo: Hucitec, 2008. (Coleção Saúde em Debate; n. 145).
MINAYO, Maria Cecília de Souza (Org.). Pesquisa social: teoria, método e criatividade. 26. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2021.
OSORIO COCK, Luz Marina; et al. Sobre el currículo oculto: del buen médico, la jerarquía y el maltrato. Revista Facultad Nacional de Salud Pública, Medellín, v. 41, n. 3, p. 349435, 2023. Disponível em: https://revistas.udea.edu.co/index.php/fnsp/article/view/349435. Acesso em: 6 nov. 2025.
RAMOS, Guerreiro. Introdução crítica à sociologia brasileira: a patologia social do branco brasileiro. Rio de Janeiro: UFRJ, 1995. p. 215-242.
SOCIEDADE BRASILEIRA DE MEDICINA DE FAMÍLIA E COMUNIDADE (SBMFC). Currículo baseado em competências para medicina de família e comunidade. Rio de Janeiro: SBMFC, 2015. Disponível em: http://www.sbmfc.org.br/media/Curriculo%20Baseado%20em%20Competencias(1).pdf. Acesso em: 15 nov. 2024.
STARFIELD, Barbara; et al. Atenção primária: equilíbrio entre necessidades de saúde, serviços e tecnologia. Brasília, DF: UNESCO, 2002.
SECRETARIA MUNICIPAL DE SAÚDE DO RIO DE JANEIRO. Subsecretaria de Promoção, Atenção Primária e Vigilância em Saúde (SUBPAV). Guia rápido pré-natal: atenção primária à saúde. 3. ed. Rio de Janeiro, RJ: SMS-RJ, 2022.
SECRETARIA MUNICIPAL DE SAÚDE DO RIO DE JANEIRO. Subsecretaria de Promoção, Atenção Primária e Vigilância em Saúde (SUBPAV). Hipertensão: manejo clínico em adultos. Rio de Janeiro: SMS-RJ, 2016. (Série F. Comunicação e Educação em Saúde).