SAÚDE COLETIVA EM TRANSFORMAÇÃO: IMPACTOS DAS DESIGUALDADES SOCIAIS, DA SAÚDE DIGITAL E DAS CRISES SANITÁRIAS NA ORGANIZAÇÃO DOS SISTEMAS DE SAÚDE E NO CUIDADO EM SAÚDE
DOI:
https://doi.org/10.56238/arev8n2-071Palavras-chave:
Crises Sanitárias, Desigualdades em Saúde, Determinantes Sociais da Saúde, Pandemias, Saúde Coletiva, TelemedicinaResumo
A persistência das desigualdades sociais, enquanto expressão dos determinantes sociais da saúde, somada à incorporação progressiva da saúde digital e aos desafios decorrentes de crises sanitárias recentes, tem provocado mudanças significativas na forma como os sistemas de saúde se organizam e como o cuidado em saúde é produzido. Nesse contexto, a Saúde Coletiva contemporânea encontra-se em um processo de transformação marcado pela persistência das desigualdades sociais, pela incorporação progressiva da saúde digital e pelos desafios impostos por crises sanitárias recentes, com destaque para a pandemia de COVID-19. No contexto brasileiro, esses elementos influenciam diretamente a organização dos sistemas de saúde e a produção do cuidado, especialmente em territórios caracterizados por vulnerabilidades sociais, regionais e estruturais. Este estudo tem como objetivo analisar os impactos das desigualdades sociais, da saúde digital e das crises sanitárias na organização dos sistemas de saúde e no cuidado em saúde, a partir de uma revisão integrativa da literatura. A pesquisa foi realizada por meio da consulta às bases PubMed/MEDLINE, SciELO e Biblioteca Virtual em Saúde, além da inclusão de documentos normativos e relatórios institucionais de órgãos oficiais, como o Ministério da Saúde (2017, 2020, 2025) e o IBGE (2024). A estratégia PICO orientou a formulação da questão de pesquisa, a seleção dos descritores e a análise dos estudos incluídos. Foram selecionados nove estudos científicos e documentos institucionais que abordam, de forma complementar, os efeitos das desigualdades sociais, da incorporação das tecnologias digitais e das respostas institucionais frente a crises sanitárias sobre a organização dos serviços e a produção do cuidado. Os achados indicam que as desigualdades sociais e territoriais condicionam a capacidade de resposta dos sistemas de saúde, influenciam o acesso aos serviços e modulam os resultados em saúde, especialmente em contextos de crise. A saúde digital emerge como estratégia relevante para reorganizar processos de trabalho e ampliar o acesso, embora sua efetividade dependa da superação da exclusão digital e do fortalecimento da Atenção Primária à Saúde. Conclui-se que a transformação da Saúde Coletiva exige a articulação entre políticas sociais, inovação tecnológica e estratégias estruturais de redução das desigualdades, visando sistemas de saúde mais equitativos, integrados e resilientes.
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