COMPROMETIMENTO VISUAL EM PACIENTES COM ACIDENTE VASCULAR CEREBRAL: UMA REVISÃO SISTEMÁTICA
DOI:
https://doi.org/10.56238/levv16n55-147Palavras-chave:
Acidente Vascular Cerebral, Distúrbios Visuais, Hemianopsia, Qualidade de VidaResumo
Introdução: O comprometimento visual é uma consequência frequente, porém sub-reconhecida, do acidente vascular cerebral (AVC) e pode limitar substancialmente a reabilitação neurológica, a independência funcional, a participação social e a qualidade de vida. Os déficits abrangem a visão central, os campos visuais, a motilidade ocular, a percepção visual e a atenção visual, e muitos não são detectados por escalas rotineiras de AVC ou por exames clínicos à beira do leito realizados por não especialistas. O reconhecimento oportuno e o encaminhamento baseado em fluxos assistenciais para serviços de ortóptica/oftalmologia e neurorreabilitação são, portanto, essenciais para a mobilidade segura, a comunicação e o planejamento de uma recuperação orientada por objetivos.
Objetivo: O objetivo principal foi sintetizar sistematicamente as evidências contemporâneas sobre a frequência, os fenótipos, as estratégias de detecção e o impacto clínico do comprometimento visual em populações adultas pós-AVC. Os objetivos secundários foram avaliar: (1) o desempenho diagnóstico e a viabilidade de ferramentas estruturadas de triagem visual nos serviços de AVC; (2) a associação entre o comprometimento visual pós-AVC e desfechos autorreferidos pelos pacientes, incluindo qualidade de vida relacionada à visão; (3) biomarcadores objetivos e correlatos mecanísticos da lesão das vias visuais relacionada ao AVC (incluindo degeneração retiniana transsináptica); (4) sinais de efetividade de abordagens selecionadas de reabilitação para perda de campo visual e desatenção visual relacionadas ao AVC; e (5) barreiras e facilitadores de implementação para integrar a avaliação visual estruturada às rotinas de cuidado do AVC.
Métodos: Realizou-se busca nas bases PubMed, Scopus, Web of Science, Cochrane Library, LILACS, ClinicalTrials.gov e WHO ICTRP para estudos publicados nos últimos cinco anos, envolvendo humanos com AVC e qualquer desfecho de comprometimento visual pós-AVC, sem restrição de idioma. Foram incluídos estudos observacionais, estudos de acurácia diagnóstica/validação, pesquisas qualitativas e estudos intervencionais que abordassem triagem, impacto ou reabilitação, com síntese narrativa dos achados e comparação estruturada por domínio do déficit. O risco de viés foi avaliado com RoB 2 para ensaios randomizados, ROBINS-I para estudos não randomizados e QUADAS-2 para estudos de acurácia diagnóstica, e a certeza global da evidência foi julgada pelo GRADE.
Resultados e Discussão: Vinte estudos foram incluídos. Em contextos agudos e de reabilitação, abordagens de avaliação estruturada identificaram de forma consistente altas taxas de déficits visuais, incluindo comprometimentos assintomáticos não captados por escalas neurológicas rotineiras, enquanto estudos de validação de ferramentas demonstraram que profissionais não especialistas em cuidados oftalmológicos podem alcançar desempenho de triagem clinicamente útil quando apoiados por instrumentos padronizados e fluxos de encaminhamento. Estudos de desfechos autorreferidos mostraram reduções clinicamente significativas na qualidade de vida relacionada à visão em casos de hemianopsia e distúrbios relacionados, e estudos de imagem demonstraram correlatos de lesão pós-geniculada, como afinamento retiniano compatível com degeneração transsináptica. As evidências intervencionais foram limitadas, mas sugeriram que alguns paradigmas de treinamento (aprendizagem perceptiva digital, abordagens baseadas em varredura visual e estimulação multissensorial em amostras pequenas) podem melhorar desfechos funcionais ou perimétricos em subgrupos, com a certeza global limitada por tamanho amostral, heterogeneidade e definições variáveis de desfecho.
Conclusão: À luz das evidências contemporâneas, o comprometimento visual pós-AVC é comum, clinicamente relevante e frequentemente não identificado na ausência de avaliação estruturada; ferramentas de triagem validadas e fluxos sistemáticos melhoram a detecção e podem possibilitar intervenções de reabilitação e segurança mais precoces e direcionadas. A integração rotineira da avaliação visual no cuidado ao AVC deve ser priorizada, juntamente com ensaios de maior qualidade e estruturas de desfechos harmonizadas para definir quais estratégias de reabilitação oferecem benefícios confiáveis e relevantes para os pacientes.
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