A ESCOLARIDADE NÃO GARANTE BOAS ESCOLHAS: UM OLHAR HISTÓRICO E ÉTICO SOBRE A CONSCIÊNCIA POLÍTICA
DOI:
https://doi.org/10.56238/levv16n51-064Palavras-chave:
Escolaridade, Consciência Política, Ética, Democracia, Cidadania Crítica, EmpatiaResumo
Já se tornou regra afirmar que, quanto mais as pessoas estudam, mais elas se tornam capazes de escolher bons políticos. Tal ideia já se enraizou na mente da maioria das pessoas, em todas as classes sociais, principalmente na chamada elite pensante. Na prática, quando analisamos os posicionamentos políticos, especialmente da classe social mais escolarizada, fica perceptível que muitos elegem ou optam por apoiar políticos que, em sua grande maioria, são defensores ou simpáticos a regimes opressores e autoritários. Por exemplo, recentemente, o ministro decano do STF, Gilmar Mendes, declarou: “Nós todos somos admiradores do regime chinês, do Xi Jinping” (UOL, 2025), durante sessão que discutia a regulação das redes sociais. Citei um ministro do STF, mas eu poderia mencionar outras centenas de exemplos semelhantes. Ao analisarmos a história, encontramos muitos casos em que pessoas com alto nível de escolaridade apoiaram regimes que, inclusive, praticaram genocídio. Assim, é perceptível, em todos os cenários, quer sejam do passado ou do presente, que a escolarização não é garantia de que a pessoa desenvolva valores como a empatia e o respeito a pontos de vista diferentes, nem colabora para que tal pessoa consiga fazer escolhas políticas acertadas, que prezem pela liberdade popular e pelos direitos humanos. Neste ensaio, estabeleço ligações entre reflexões de Paulo Freire, Hannah Arendt, Edgar Morin, John Dewey e Martha Nussbaum, apoiadas em dados de organismos como a UNESCO, o PISA e o Pew Research Center. A ideia é mostrar que formar cidadãos com visão política imparcial vai muito além do acúmulo de informações e conteúdos. De fato, para que a pessoa desenvolva pensamento crítico justo e imparcial, ela precisa estar aberta ao diálogo e assumir postura humilde para reconhecer erros e, assim, mudar de posicionamento quando necessário. Todavia, casos históricos, exemplos atuais e práticas bem-sucedidas mostram que a consciência política nasce e evolui quando razão, ética e empatia se tornam aliadas e nem sempre dentro das salas de aula, seja qual for o nível.
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Referências
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