MANIFESTAÇÕES CUTÂNEAS DAS DOENÇAS AUTOIMUNES SISTÊMICAS
DOI:
https://doi.org/10.56238/levv17n56-007Palavras-chave:
Doenças Autoimunes, Manifestações Cutâneas, Dermatologia, Doença SistêmicaResumo
Introdução: As manifestações cutâneas representam um dos componentes mais frequentes e clinicamente informativos das doenças autoimunes sistêmicas, refletindo frequentemente uma complexa desregulação imunológica que se estende além da pele. Em muitas condições autoimunes, os achados dermatológicos podem preceder o acometimento sistêmico, surgir durante exacerbações da doença ou persistir como marcadores de ativação imunológica crônica. Essas manifestações oferecem uma interface visível e acessível por meio da qual a atividade, a gravidade e a progressão da doença sistêmica podem ser inferidas. Dessa forma, a avaliação cuidadosa da pele pode desempenhar um papel fundamental no diagnóstico precoce, na estratificação prognóstica e no monitoramento longitudinal de pacientes com doenças autoimunes sistêmicas.
Objetivo: O objetivo principal desta revisão sistemática foi sintetizar de forma abrangente as evidências contemporâneas sobre o espectro e a relevância clínica das manifestações cutâneas nas doenças autoimunes sistêmicas. Os objetivos secundários incluíram avaliar o valor diagnóstico de fenótipos cutâneos específicos, analisar sua associação com o acometimento de órgãos sistêmicos e a atividade da doença, examinar suas implicações prognósticas para morbidade e mortalidade, explorar correlações imunopatológicas subjacentes, investigar seu impacto na tomada de decisão terapêutica e identificar lacunas metodológicas e limitações na literatura atual.
Métodos: Foi realizada uma busca sistemática nas bases PubMed, Scopus, Web of Science, Cochrane Library, LILACS, ClinicalTrials.gov e na International Clinical Trials Registry Platform. Aplicaram-se critérios de inclusão e exclusão previamente definidos, priorizando estudos publicados nos últimos cinco anos, com extensão do período quando necessário para garantir representatividade adequada. Os estudos elegíveis foram sintetizados qualitativamente de acordo com as recomendações do PRISMA, com avaliação estruturada do risco de viés e da certeza da evidência, a fim de sustentar uma interpretação baseada em evidências.
Resultados e Discussão: Vinte estudos atenderam aos critérios de inclusão, abrangendo uma ampla gama de doenças autoimunes sistêmicas, incluindo doenças do tecido conjuntivo, vasculites sistêmicas e síndromes de sobreposição. Nessas condições, fenótipos cutâneos específicos correlacionaram-se de forma consistente com a atividade da doença sistêmica, o envolvimento de órgãos internos, os desfechos prognósticos e as medidas de qualidade de vida relatadas pelos pacientes. Manifestações cutâneas como lesões crônicas do lúpus, ulcerações associadas à dermatomiosite, fibrose cutânea relacionada à esclerose sistêmica e lesões vasculíticas na síndrome de Sjögren e nas vasculites sistêmicas emergiram como marcadores clinicamente relevantes de gravidade da doença. Apesar de tendências consistentes, a heterogeneidade no delineamento dos estudos, na classificação das lesões e no relato dos desfechos limitou a certeza da evidência em alguns domínios.
Conclusão: As evidências disponíveis indicam que as manifestações cutâneas não são meros achados acessórios, mas constituem marcadores clinicamente significativos da atividade e do prognóstico das doenças autoimunes sistêmicas. Seu reconhecimento e interpretação sistemáticos podem aprimorar a acurácia diagnóstica, facilitar a identificação precoce de pacientes de alto risco e orientar estratégias de manejo individualizadas. A integração de uma avaliação dermatológica estruturada em modelos de cuidado multidisciplinares e baseados em evidências é essencial para otimizar os desfechos e melhorar a qualidade de vida dos pacientes com doenças autoimunes sistêmicas.
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