"AINDA ESTOU AQUI" E AS FALHAS DO ESTADO BRASILEIRO EM CASOS DE DESAPARECIMENTO: DA EUNICE DO PASSADO À EUNICE DO PRESENTE
DOI:
https://doi.org/10.56238/arev8n1-059Palavras-chave:
Desaparecimento de Pessoas, Falhas do Estado Brasileiro, Ainda Estou Aqui, Esquecimento Político, Recorte de GêneroResumo
No Brasil, o desaparecimento é um fenômeno de pouca visibilidade, apesar das altas taxas de ocorrência. Contudo, a partir da notoriedade do filme brasileiro “Ainda Estou Aqui”, que retrata a luta de Eunice Paiva em face do desaparecimento de seu marido Rubens Paiva em 1971, ocorrido durante período de ditadura militar, o assunto ganhou destaque. Assim, famílias foram encorajadas a denunciar casos de desaparecimento em que a atuação do Estado brasileiro foi omissa ou negligente. Nesse contexto, a rede de pesquisa brasileira REDESPARC entrevistou Eunice Santos, cujo marido desapareceu em 2015 devido a problemas de saúde mental. Assim, o presente artigo tem como objetivo comparar os casos de Eunice Paiva e Eunice Santos, de forma a identificar, sob um recorte de gênero, os impactos psicossociais e econômicos enfrentados pelas mulheres, além de contribuir para a compreensão acerca das dificuldades que o Estado Brasileiro ainda enfrenta em casos de desaparecimento. A pesquisa foi realizada, em parte, através de pesquisa qualitativa baseada em entrevistas baseadas em roteiro estruturado, gerando dados primários, analisados através do método indutivo. Complementarmente, foi realizada pesquisa bibliográfica e documental, utilizando o método histórico-comparativo para a comparação dos casos e o método de abordagem dedutivo para análise dos dados secundários. A conclusão obtida revelou que, apesar das distintas causas de desaparecimento de seus maridos, ambas as “Eunices” experienciaram inércia policial, omissão governamental, impedimentos burocráticos, traumas psicológicos e danos socioeconômicos, o que reflete a contínua política de esquecimento de desaparecidos intrínseca à estrutura formadora da sociedade brasileira.
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