EFICÁCIA DOS PROGRAMAS DE RASTREAMENTO DO CÂNCER DO COLO DO ÚTERO BASEADOS EM HPV: UMA REVISÃO SISTEMÁTICA
DOI:
https://doi.org/10.56238/levv17n57-020Palavras-chave:
Câncer do Colo do Útero, Papilomavírus Humano, Rastreamento em Massa, Detecção Precoce do CâncerResumo
Introdução: O câncer do colo do útero permanece como uma neoplasia prevenível; no entanto, continua a impor uma carga substancial à saúde global, particularmente em contextos com cobertura inadequada de rastreamento. O reconhecimento da infecção persistente por papilomavírus humano (HPV) de alto risco como o principal fator causal da carcinogênese cervical impulsionou uma mudança de paradigma do rastreamento baseado em citologia para estratégias moleculares baseadas em HPV. Nos últimos anos, o rastreamento baseado em HPV tem sido cada vez mais implementado em programas populacionais organizados em todo o mundo, tornando necessária uma síntese atualizada de sua eficácia.
Objetivo: Avaliar sistematicamente a eficácia dos programas de rastreamento do câncer do colo do útero baseados em HPV em comparação com estratégias baseadas em citologia ou co-teste na detecção de neoplasias intraepiteliais cervicais de alto grau e na prevenção do câncer do colo do útero invasivo, bem como analisar os benefícios associados e os potenciais danos relevantes para a prática clínica e para as políticas de saúde pública.
Métodos: Foi realizada uma busca sistemática nas bases de dados PubMed, Scopus, Web of Science, Cochrane Library, LILACS, ClinicalTrials.gov e na Plataforma Internacional de Registros de Ensaios Clínicos da Organização Mundial da Saúde. Foram incluídos ensaios clínicos randomizados, estudos de coorte e avaliações de grandes programas populacionais, publicados predominantemente nos últimos cinco anos. Os desfechos de interesse compreenderam taxas de detecção de neoplasia intraepitelial cervical grau 2 ou pior e grau 3 ou pior, incidência de câncer do colo do útero, taxas de câncer de intervalo, intervalos de rastreamento e encaminhamentos para colposcopia. O risco de viés foi avaliado por meio das ferramentas RoB 2, ROBINS-I e QUADAS-2, e a certeza da evidência foi avaliada utilizando a estrutura GRADE.
Resultados e Discussão: Vinte estudos atenderam aos critérios de inclusão, abrangendo ensaios randomizados, registros nacionais e grandes análises de coorte. Em diferentes contextos, o rastreamento baseado em HPV demonstrou consistentemente maior sensibilidade para lesões cervicais de alto grau e proteção superior a longo prazo contra o câncer do colo do útero invasivo em comparação ao rastreamento citológico. Intervalos de rastreamento estendidos após um teste de HPV negativo mostraram-se seguros, com reduções sustentadas nos casos de câncer de intervalo. Embora as rodadas iniciais de rastreamento tenham sido associadas a um aumento nos encaminhamentos para colposcopia, estratégias adequadas de triagem mitigaram efetivamente procedimentos desnecessários. As evidências permaneceram robustas em populações vacinadas, apoiando o uso contínuo do rastreamento baseado em HPV em contextos epidemiológicos em evolução.
Conclusão: Os programas de rastreamento do câncer do colo do útero baseados em HPV são mais eficazes do que as estratégias baseadas em citologia na detecção de lesões pré-cancerosas clinicamente significativas e na redução da incidência do câncer do colo do útero. As evidências acumuladas sustentam o teste de HPV como a modalidade preferencial de rastreamento primário, oferecendo maior sensibilidade, intervalos de rastreamento mais longos e maior eficiência programática. A implementação cuidadosa, com triagem estruturada e comunicação clara com as pacientes, é essencial para maximizar os benefícios e minimizar os danos, consolidando o rastreamento baseado em HPV como um pilar da prevenção contemporânea do câncer do colo do útero.
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